A sujeira continua a aparecer no OOXML

A verdade está aparecendo cada vez mais no OOXML, e de como o processo está se tornando não apenas estranho, mas totalmente fora de ordem. Hoje, o Jomar postou algumas informações sobre o que diabos aconteceu realmente no BRM: na realidade, a famosa “Lei do Silêncio” não foi ‘esclarecida’ (perceba a ironia aqui). A questão não é de que havia algum tipo de “Lei de Silêncio”, mas sim de que os participantes deveriam (não seriam obrigados) a permanencer em silêncio quanto a esses eventos… É engraçado que isso tenha sido colocado agora, quando todos ficaram calados, enquanto outras partes interessadas utilizaram-se desses valores para tentar “passar a perna” no debate. Isso mostra como essas coisas são úteis para aqueles que querem trapacear processos ISO.
Como sempre, o Jomar manda muito bem ao esclarecer as coisas: ele se preservou enquanto não tinha a certeza de poder ou não comentar o processo, o que mostra que ele é um cara ético. Agora, porém, ele resolveu “rasgar o verbo”:

Finalmente: os detalhes sobre o resultado do BRM | void life(void)

Como informado no meu penúltimo post, entrei en contato com a ISO e o IEC (na verdade com o Gabriel Barta do ITTF), e ele me esclareceu que apenas “recomendou” que os detalhes não fossem revelados e que não pode fazer nada contra isso (nem contra a Microsoft, nem contra este pobre delegado). Além disso me disse que eu posso falar o que quiser, mas mantém a recomendação… Tá bom…obrigado pelo conselho…

E vamos ver o que o Jomar tem a dizer:

Finalmente: os detalhes sobre o resultado do BRM | void life(void)

Para iniciar a história, na reunião de véspera do BRM, os Chefes de Delegação (HoD) foram avisados que na quarta feira teriamos todos que tomar uma decisão sobre o que fazer com as propostas do ECMA que não pudessem ser discutidas.

Vamos entender o que aconteceu: o BRM, que em teoria deveria resolver todos os problemas do padrão em estudo, ao invés de debater todos os problemas do padrão simplesmente fez uma postura de João-Sem-Braço, ignorando a função básica do BRM de alcançar um consenso normativo (como dito anteriormente) ignoraram sumariamente uma massa completa de inconsistências e erros, conforme citado pelo Cezar Taurion da IBM. Desse modo, além de perder-se fundamentalmente o objetivo principal do BRM, fez-se uma espécie de “padronização a toque de caixa” que demonstra que não houve por parte dos principais interessados nesse caso (ECMA e Microsoft) de u debate completo e técnico quanto ao formato.
Continuando, o Jomar explica como é feito o debate das contradições durante o BRM, e mostra uma coisa MUITO interessante:

Finalmente: os detalhes sobre o resultado do BRM | void life(void)

O forma de trabalhar adotada nos dois primeiros dias de reunião (e no papel funciona que é uma beleza), cada um dos países presentes (na verdade os chamados National Bodies ou NBs e se não me engano eram 33) poderiam apresentar para a discussão uma das propostas de seu interesse (ou seja, em ordem alfabética cada um apresentava um problema). O debate então se iniciava e caso fosse muito polêmico, os NBs envolvidos com a discussão eram convidados a discutir “off-line”, colocando o assunto para um backlog. Toda discussão terminava em instruções de alteração para o editor e qualquer coisa que não contivesse “instruções de alteração para o editor” era simplesmente ignorada.
O resultado disso é que até sexta feira, sequer duas rodadas completas foram realizadas (ou seja, houve NB que pode apresentar só uma vez) … explicação: Falta de Tempo (que aliás, explica todas as demais decisões tomadas lá, ok ?). (grifos meus)

Alguns detalhes a ressaltar:

  1. Perceba que cada NB podia apresentar por rodada um único problema. O dilema é: alguns NBs, como o brasileiro, tinham listas enormes de problemas a serem questionados. Mesmo considerando-se a possibilidade de um mesmo problema ser apresentado por vários NBs, como é que todos poderiam ser investigados dessa forma.
  2. O Jomar diz que “qualquer coisa que não contivesse “instruções de alteração para o editor” era simplesmente ignorada“. Ou seja, uma série de fatores que importantes, como a questão do mapeamento de binários entre outros foi simplesmente chutados para escanteio sumariamente. Desse modo, como pode-se alcançar um melhor esclarecimento sobre essas questões? Principalmente em um padrão lotado de artefatos de implementação (wrapLikeWord95 e afins)?

Mas ainda assim as coisas continuam piorando:
Finalmente: os detalhes sobre o resultado do BRM | void life(void)

Durante os debates, algumas discussões acabavam se expandindo e abrangendo mais do que uma resposta (ou as vezes as respostas tratavam de temas coligados) e isso explica o elevado grau de itens discutidos (ou como prefiro chamar “tocados”) no BRM (retirado deste documento, o documento final do BRM): 189 respostas ou 18,4 % do total (isso é que é o que se espera de um debate internacional sobre uma norma de tamanha relevância, não é mesmo… Já imaginou se nossa constituição fosse escrita assim, com apenas 18% das leis discutidas e analisadas ?).

Alguém vai falar: “18,4% não é bom?” Não, não é? Isso é um padrão internacional: em um mundo globalizado, a troca de informações (e portanto de documentos) por meios digitais assumirá cada vez mais uma importante função nas empresas de todos os portes e nos governos, e até mesmo nas relações pessoais. Um formato mal-padronizado, com “minas terrestres de patentes”, cheio de furos técnicos, redundante, e simplesmente complexo demais deveria ser aprovado com tão pouco debate em cima do mesmo? Como o Jomar disse: “Isto significa que especialistas do mundo todo foram a Genebra para resolver apenas 18,4 % de um tremendo problema. O resto (81,6%) foi “dado um jeitinho”.
Mas vocês acham que acabou? Não, ainda tem mais!

Finalmente: os detalhes sobre o resultado do BRM | void life(void)

Aliás, me reservo o direito de não comentar aqui o que levou a aprovação desta proposta [da transformação da especificação em uma Multi-Part standard, na qual o Brazil apresentou uma objeção], que na verdade transforma o OpenXML (ou a DIS 29500) em singelas cinco normas internacionais que poderão ter vida própria (única diferença de cinco normas “tradicionais” é a sua numeração compartilhada, DIS 29500-1, DIS 29500-2 … DIS 29500-5). Lindo isso, não ?

Ou seja, existiram coisas tão atrapalhadas (ou intencionalmente manipuladas), que o Jomar se absteve de comentar. Em uma situação como essa, o que leva a pessoa a se abster, senão um processo terrivelmente mal-feito (ou intencionalmente manipulado).
Agora, vem uma parte importante desse post do Jomar e uma resposta para muitas coisas: de onde a Microsoft tirou a questão dos 98% de aprovação dos comentários ao OOXML?!
Finalmente: os detalhes sobre o resultado do BRM | void life(void)

Quando chegou a quarta feira, nos foram apresentadas quatro opções de “destino” às demais respostas (ou seja, 81,6% do total). Eram apenas quatro opções e uma delas deveria ser escolhida (na hora eu me lembrei do filme “A escolha de Sofia”):
1 – Todas rejeitadas.
2 – Todas aprovadas.
3 – O ITTF decide tudo.
4 – Decisão por voto em lote (com a possibilidade de declaração de voto individual para cada resposta e/ou definição de um voto global, do tipo “aceito tudo”).
Evidentemente que a opção menos ridícula era a opção 4 e por isso ela foi aprovada (no documento final existe uma cópia da cédula de votação). Muito foi debatido sobre a possibilidade de que alguns NBs fizessem votos de bloqueio (como votar tudo sim para forçar a aprovação ou tudo não para desaprovar), mas nada poderia ser feito a este respeito…
Houve um protesto muito interessante de uma delegação que disse que não tinha ido até a Suiça para votar, que poderia fazer isso de casa e a resposta: “Paciência… a vida é assim” .
Outro NB protestou dizendo que só recebeu o documento contendo as respostas para seus próprios questionamentos e não tinha tido a oportunidade sequer de analisar as demais respostas. Por isso foi criada a opção “Não quero registrar uma posição” na cédula. O problema apontado ocorreu com outros NBs e portanto, teve NB que votou em propostas que nunca leu !!! (legal isso, né ?).
(…)
Fiz questão de contar isso apenas para que seja pública a explicação aos 98% de aprovação que certas empresas andam utilizando mundialmente.
Viu como agora os 98% não significam absolutamente nada ? E os 18,4%… estes sim merecem ser debatidos (e explicados por alguém).

Repare aqui a questão: houve uma verdadeira “aprovação em massa” de uma série de questões importantíssimas e que foram simplesmente ignoradas pela ISO. Desse modo, como confiar no OOXML? Como desenvolver para isso? Qual a segurança que temos de que os documentos irão abrir corretamente, mesmo no Microsoft Office 2007? Quais são as garantias que o esforço potencial para desenvolver-se sistemas que abram e manipulem tais formatos não será jogado fora ao perceber-se que os documentos resultantes não abrem ou oferecem informações errôneas em outros sistemas compatíveis com esse formato? Pequenas discrepâncias são aceitas (grave um documento no OOo e abra no Lotus Symphony da IBM e você poderá ter isso), mas quais são as garantias?
A postura brasileira de Dizer NÃO ao OOXML está correta por tudo isso: esse formato é simplesmente horrível e não tem condições de fazer NADA ao que se propõe a fazer. Aprovar o OOXML agora é transformar a ISO em um órgão de “ceder selinhos” para empresas, o que desvritualizaria tudo o que a ISO representa. A ISO não é perfeita (X.25 alguém), mas muitos padrões que ela divulgou foram adotados a partir de um consenso e tornaram-se importantes no mercado (os próprios padrões ISO 9000 são exemplos).
Se o OOXML passar agora, vai ser a submissão da ISO à Microsoft e resultará em um lock-in oficializado, uma vez que até agora, à exceção dos produtos Microsoft, não existe nada que abra os documentos OOXML do MS Office 2007 corretamente. Sendo que atualmente ainda é impossível desassociar o OOXML do MS Office (o que acontece com o ODF em relação ao seu “software de referência”, o OpenOffice.org), temos uma situação como nunca foi vista na ISO: uma única empresa poder oficializar um gigantesco monopólio por meio de um padrão “consolidado de um consenso”.
Quem tem a ganhar nesse caso? O Brasil ou a Microsoft? Sua empresa ou a Microsoft? Você ou a Microsoft?
Pense muito nisso…

Office OpenXML (OOXML) e inapto pela ISO 29500


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Sobre Fábio Emilio Costa
Linux, Free Software, EMACS, Rugby, Indycar, Doctor Who, Harry Potter... Yep, this is me!

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