Meio-Bit e a polêmica das traduções em SL

Eu tenho que admitir que até gosto de ler o Meio-Bit: o Cardoso parece de certa forma o similar brasileiro do John C. Dvorak (colunista norte-americano que publica colunas na Info brasileira), com um certo teor de trollagem no qual pode estar uma preocupação verdadeira. Isso é algo de se admirar nele.
Mas acho que às vezes até mesmo isso passa dos limites.
Recentemente ele postou no Meio-Bit um artigo com um nome no mínimo provocativo: Quer ajudar o Software Livre? Esqueça o Babelfish. O artigo até tem uma opinião bastante relevante, ainda que não possamos concordar: é o problema relacionado com a diferença entre tradução e localização. Mas o problema é que o tom do artigo, mais o próprio retrospecto do autor, mais uma série de outras questões compromete o que ele diz:

Quer ajudar o Software Livre? Esqueça o Babelfish | Meio Bit

No caso das traduções, temos um agravante: São de péssima qualidade. Um desenvolvedor de um projeto Open Source pequeno não tem mão-de-obra para certificar uma tradução. Se for um idioma pouco-familiar então, está na mão de quem “colaborou” com a versão.

Acho que o agravante aqui não é a péssima qualidade, o tamanho do projeto ou qualquer catzo que o seja, e sim na real é o fato de que as pessoas ainda não entenderam (provavelmente como o Cardoso) que a programação não é a única forma de colaborar com Software Livre. Ou seja, ou programo ou não colaboro.
Embora seja programador formado, vou admitir que não sou um super-programador, um über-hacker de códigos. Mas acho que conheço bem inglês e português. Quando tomei conhecimento do projeto Babelzilla (um projeto que fornece um site e ferramentas para tradução de extensões dos software do Mozilla), decidi começar a participar. Já tinha feito a tradução de uma extensão simples (a Add Bookmarks Here), então decidi procurar alguma na qual pudesse ajudar. Acabei pegando uma das mais importantes extensões atualmente, a Scribefire (ferramenta de edição de posts para blogs do Firefox). Antes que pensem que é fácil, mesmo ela sendo localizada e tudo o mais, são mais de 300 strings para traduzir com cuidado com termos e consistência. Não é um processo fácil e a cada novo release, novas strings relacionadas a novas funcionalidades surgem e precisam ser traduzidas.
A questão aqui é que existem formas razoavelmente simples de participar-se desse tipo de projeto e apoiar traduções, sobre as quais falarei adiante.
Vejamos o que o Cardoso diz a seguir:
Quer ajudar o Software Livre? Esqueça o Babelfish | Meio Bit

Tradução, aliás, que não é só rodar uma série de strings no Babelfish, colar de volta, enviar e dizer “eu sou desenvolvedor Open Source”. Parte do esforço deveria incluir localização, mas aí entra mexer em código, e os 99% lá de cima não têm competência pra isso.

Aqui é importante também que os desenvolvedores colaborem para tornar o software localizável. No caso do Firefox e das suas extensões, existem ferramentas de código que tornam o software localizável. Diferentemente do que se prega, localizar um software não é uma questão também de criar-se códigos com compilação condicional para os vários idiomas. Um software localizável tem que ter um mecanismo de:

  1. Identificar o “idioma preferido” do ambiente em questão;
  2. Carregar arquivos de localização específicos para o idioma em questão e;
  3. Substituir determinadas strings pelas informações contidas em um arquivo de localização;
  4. Modificar e corrigir determinadas características idiomáticas para o “idioma preferido” (por exemplo, no caso do japonês, chinês e hebraico, entre outros, onde a leitura dos conteúdos é feita da direita para a esquerda, o texto e a posição dos elementos de tela devem ser invertidos);

OK… Aqui temos uma questão interessante sobre como tornar o software localizável. Consultando a Internet, achei esse artigo no Guia do Mochileiro. Esse artigo comenta um pouco do processo de transformar o software em localizável. É um processo que depende de todos os lados e que é feito para ser “independente”, ou seja, o tradutor não precisa ser parte da equipe de tradução e vice-versa.
Agora, qual a dificuldade?
Na verdade, a dificuldade é justamente coisas como a que o Cardoso coloca e que o Vladimir Melo comenta:
Conheço alguém que prejudica o software livre « Vladimir Melo

(…) Ele faz críticas duras à tradução de software livre e encerra afirmando absurdamente: “Afinal pro usuário não importa se a janelinha está em inglês ou português, essencial é que ela faça alguma coisa.”

(…)Ele ou qualquer outra pessoa deveria pesquisar na internet durante meia hora para conhecer os projetos de tradução e saber (inclusive pelos usuários) o quanto eles têm melhorado tecnicamente. (…)

Por exemplo, as pessoas que vão a um hipermercado e compram um computador popular não têm obrigação de saber inglês (e muitas vezes não sabem). O fato de um aplicativo estar traduzido ou não faz toda a diferença para que elas o usem. Mas certamente este blogueiro não tem consciência de que sua atitude afasta colaboradores e dificulta o nosso trabalho de recrutamento e divulgação.

A questão é que, pela exposição do Cardoso, uma pessoa deveria se preocupar apenas em programar SL. A verdade é que, embora isso seja importante (1) não é fácil de ser feito e (2) tira foco.
O programador de SL tem que ser visto como programador, e o tradutor como tradutor. Se você não possui habilidade como programador, não há problema: o mundo do SL possui espaço para todo tipo de envolvimento, seja desenvolvimento, documentação, tradução, artes ou evangelização. Escolha uma área onde você sinta ter proficiência e vá em frente. Bug report, relato de problemas com a tradução e por aí afora também é importante. Não se sinta acanhado: existe MUITO ESPAÇO para atuar-se (aproveito e me coloco à disposição de qualquer usuário do Scribefire para comentários sobre a tradução para o português brasileiro).
Agora, tenho que concordar com a citação do Vladimir acima: o que o Cardoso diz no final do seu artigo é, no mínimo, irresponsável:
Quer ajudar o Software Livre? Esqueça o Babelfish | Meio Bit

Você vai colaborar muito mais com o Open Source (e com seu futuro profissional) se ao invés de sair chutando traduções automáticas agora, se preparar por uns 2 ou 3 anos e entrar produzindo de verdade. Afinal pro usuário não importa se a janelinha está em inglês ou português, essencial é que ela faça alguma coisa. (grifos meus)

Dizer isso é irresponsável pois no Brasil muitas pessoas mal sabe ler, escrever e compreender o português direito, quanto mais o Inglês, que é um idioma que, por mais que os anglófonos queiram dizer, é cheio de nuances e detalhes específicos. Colocar um software em inglês, à exceção de software altamente especializado (como programação, CAD e afins) ou em jogos (onde o inglês se resume praticamente a “Press Start”, à exceção de jogos no estilo RPG) é algo que eu diria no mínimo temerário. Mesmo a MS percebeu isso e com o passar do tempo passou a localizar todos os seus softwares para outros idiomas além do inglês. Não adianta o software fazer algo se o usuário não sabe o que ele faz, e simplesmente adestrar o usuário em “Clique aqui, clique aqui, clique aqui…” não resolve o problema básico, que é o fato de ele não saber o que cargas-d’água ele está fazendo.
Não tiro alguns méritos do artigo do Cardoso, e ressalto aos usuários de SL: se perceberem coisas estranhas em traduções, COMENTEM JUNTO ÀS COMUNIDADES OU DESENVOLVEDORES!!! A maior parte dos software mais importantes possuem comunidades específicas para a tradução (Ubuntu LoCo Teams, os projetos de localização do Debian como o Debian Brasil, Babelzilla, BrOffice.org, etc…) e elas são receptivas com os interessados (sei disso pela recepção que tive dos desenvolvedores do Scribefire), oferecendo todos os recursos para aqueles que desejarem aprender, assim como listas onde pode-se discutir termos adotados até que um consenso seja obtido. Se você souber um pouco mais de programação, prepare software para ser localizado (o artigo da Wikipedia citado anteriormente serve de bom ponto de partida). Acima de tudo participe!
Mas também tenho que afirmar que o artigo do Cardoso, apesar de tudo isso, foi de um mau-gosto atroz, e de um nível de temerariedade incrível. Vou me abster de comentar mais sobre o artigo per se, pois creio que o fundamento dele já foi desfeito aqui.
De qualquer modo, fica a sugestão aos novatos: participem. Aos veteranos: ajudem os novatos, por favor!

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Software livre, faculdades e capacitação

Recentemente (13 de Abril), o Ricardo (do blog Technix, leitura recomendável) estava escrevendo sobre a Profissionalização do mercado do GNU/Linux. E os comentários que ele faz são realmente pertinentes:

[ t e c h n i x ] » Blog Archive » Profissionalização do mercado Linux

Foi o tempo em que Linux e software livre eram coisa de profissional divertindo-se em seu tempo livre. A noção de que o Linux, o OpenOffice, Apache, Firefox e outros foram desenvolvidos nos finais de semana por gente trabalhando de graça ainda existe, mas está indo por terra. Cada vez mais grandes empresas de TI investem para transformar o software livre em um modelo de negócios sólido. O resultado disso é que software livre já concorre em muitas áreas em pé de igualdade com softwares proprietários. A medida que esse quadro se desenha fica mais claro que o nível do profissional de software livre precisa acompanhar o rítmo do mercado. É possível ganhar dinheiro e fazer carreira na área, mas a profissionalização é importante para conseguir uma boa oportunidade de trabalho.

E isso é muito bom, pois existe muita gente que dedica muito tempo de sua vida aprendendo as nuances do GNU/Linux, procurando se destacar, se diferenciar, crescer e oferecer algo inovador como profissional. Quem não pensa sobre SL em sua corporação pode acabar se dando mal mais cedo ou mais tarde…

A rede de supermercados Extra do grupo Pão de Açucar é um exemplo. Em uma entrevista que tornou-se emblemática para a Info Exame em 2002 o encarregado de TI do grupo, Sr. Silvio Laban afirmou “Linux nem com um 38 na cabeça”. Alguns meses depois, com a troca da equipe de TI do Pão de Açucar o grupo varejista anunciou uma parceria com a Red Hat para a implantação do Linux em quase 9.000 pontos de venda em 560 lojas das bandeiras Pão de Açucar, Extra e CompreBem. Segundo o grupo a adoção do Linux ocorreu pela percepção de que “Os fabricantes estão assumindo a responsabilidade pelo suporte ao Linux” conforme relatou Ney Santos, diretor de tecnologia da Companhia Brasileira de Distribuição (novo nome do Grupo Pão de Açucar).

As empresas não possuem mais motivação para se travarem e esquecerem do GNU/Linux como uma oportunidade de negócio inovadora e competente. É totalmente possível usar o GNU/Linux em qualquer aplicação de ambiente corporativo, sem perda de nenhum tipo (ou com perda mínima).

Mas o que tudo isso tem a ver com Software Livre?

Segundo Helio Castro, desenvolvedor Linux da Mandriva Conectiva do Brasil e membro do projeto KDE, as universidades brasileiras não preparam o estudante para entender e trabalhar com o modelo de software livre. Normalmente os docentes impelem aos alunos um modelo exclusivamente proprietário durante a graduação. Cada aluno recebe um trabalho para executar e deve fazê-lo sozinho, sem compartilhar informações ou código com os colegas. Isso leva à um sistema que produz o chamado “Software de Padaria” onde, pela falta de tempo hábil, os alunos desenvolvem diversas versões de programas corriqueiros como controles para vídeo-locadoras, farmácias, etc. Esses programas tem pouco uso prático e quase sempre são esquecidos assim que o aluno pega o diploma. Se os docentes sugerissem que a turma trabalhasse como um todo, em equipe, usando o modelo livre na prática em um grande projeto os futuros profissionais teriam chance de criar softwares com real aplicação prática e saíriam das escolas preparados para trabalhar em equipes com um pleno entendimento do funcionamento do software livre enquanto modelo de produção.

Infelizmente verdade seja dita: a maioria das faculdades trata o ensino de informática segundo um modelo de uso e desenvolvimento proprietário. Se você estuda em uma faculdade, já deve ter percebido como aqueles que cedem códigos para os outros alunos são sempre considerados “bobocas”, “tapados” e outros termos que não valem a pena ser ditos aqui.

A verdade é que o software livre é apenas uma metodologia de desenvolvimento de software. Porém, ela possui toda uma quantidade de barreiras a serem transpostas pelo desenvolvedor se ele deseja ser bem-sucedido ao trabalhar com ela. Ele tem que aprender a:

  1. Aceitar opiniões e críticas;
  2. Aprender a colaborar;
  3. Mostrar que já tentou desenvolver algo;
  4. Pedir por ajuda;

Quatro coisas que, dentro do ambiente típico de desenvolvimento proprietário são consideradas inaceitáveis. É necessário que as faculdades sejam o primeiro bastião a fomentar tais comportamentos, estimulando um trabalho mais participativo. Na prática, o que vemos atualmente é que cada um faz o seu trabalho, de maneira independente e até mesmo antagônica em relação aos seus companheiros de turma. Seria muito mais interessante, como o Ricardo comentou, utilizar-se de projetos amplos o tempo todo. Estou (na verdade, toda a minha turma do curso de Tecnologia em Desenvolvimento de Software das Faculdades ASMEC está) sentindo o peso dessa falta de aculturação com um desenvolvimento mais colaborativo, graças a um projeto da coordenadoria do curso (antes que achem que estou criticando, antes tarde do que nunca… :D)

Continuando os comentários do artigo, Ricardo fala das certificações:

Entretanto uma empresa brasileira reconheceu as deficiências dos modelos acadêmicos e optou por outro caminho. Certificar o profissional treinando-o enquanto ele ainda é um estudante. Com essa fómula a Alternativa Linux desenvolveu um sistema de parceria com diversas universidades do Brasil para ministrar seus cursos dentro das universidades. Os alunos podem participar dos cursos e treinamentos durante a graduação e chegar ao mercado de trabalho já com uma certificação VN de Administração de sistemas Linux, Profissional Linux ou Segurança. Profissionais já colocados no mercado também podem obter as certificações da mesma forma, participando dos cursos dados pelas instituições que firmaram parceria com a Alternativa Linux. As certificações da Alternativa possuem uma boa aceitação do mercado, pois como a LPI são independentes de distribuição. A diferença é que essa certificação é mais voltada ao mercado brasileiro de software livre.

Iniciativas como LPI e Alternativa Linux (vendor neutral, independente da empresa) são muito positivas, na medida em que elas começam a criar uma força para o Software Livre com profissionais de qualidade. Mas é importante que as faculdades e, acima de tudo, os profissionais, percebam que Software Livre não é futuro. É presente. Pode não ser o dominante, mas é o que está crescendo. Não acho que profissionais com certificações MS estejam recebendo tanto assim, pois eles são comuns. Quem quiser se dar bem tem que apostar alto e ser apaixonado por aquilo. E paixão reflete-se na dedicação a um tipo de serviço. No caso, Software Livre. E nessa paixão, parar de enxergar uma solução como futuro, e sim como presente, é algo mais do que importante.

A expectativa é que o mercado de Software Livre torne-se cada vez mais pragmático, cada vez mais negócio. Acabaram-se os tempos em que software livre era exclusivamente passatempo de garagem de jovens idealistas. Isso ainda existe hoje, de fato. Mas os homens de negócios engravatados continuarão a tornar o software livre também um modelo comercial. Os profissionais devem manter isso em mente e buscar seu espaço para que possam fazer parte desse mercado que apresenta sinais de que continuará a expandir-se no Brasil e no mundo com bastante força nos próximos anos.

Na realidade, não há nada que impeça engravatados de ver o SL como um modelo comercial. Ser pragmático é bom algumas vezes. Mas não deixa de ser importante notar que a dedicação continuará contando… Como ele disse, será necessário profissionalização do profissional GNU/Linux (sem trocadilhos aqui), e uma característica de um profissional é estar sempre investindo e se aperfeiçoando.

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Do que é feito o sucesso do Linux?

Essa semana alguns artigos me chamaram a atenção. Um, na verdade um pouco mais antigo, é o artigo da ZDNet Australia ”

Sandals and ponytail set cramp Linux
” que afirma a adoção do Linux é atravancada pelo fato de a maioria dos desenvolvedores e membros da comunidade free software ter um visual um tanto relaxado, mencionando Peter Quinn, ex-CIO do Estado de Massachussets (EUA), que recentemente foi mandado embora do seu cargo por ser favorável à adoção do formatos OpenDocument.

[Os profissionais] do código aberto possuem uma aparência pouco profissional, e a comunidade precisa ser mais voltada aos negócios de modo a começar a adentrar em áreas tradicionalmente dominadas pelos vendedores de software proprietário. [Ter] uma cara em um projeto ou agenda torna muito mais interessante para aqueles que elaboram políticas [considerar o código aberto].” (todas as traduções foram feitas por mim)

Os debates (e flames) em sites como o Slashdot e o BR-Linux foram muito intensos, principalmente com a noção de que “aparência não faz mesa”, mencionando coisas como os casos Enron e Worldcom (praticados por contadores e administradores, que, ao menos na teoria, se vestem impecavelmente.

Uma das melhores posições que li foi do pesquisador David Wheeler, publicada na Groklaw, que resumiu de certa forma os motivos de Quinn:

GROKLAW – Dress for success? Decide on your goals, then act to reach them, by David A. Wheeler

A verdade é que as pessoas julgam umas às outras baseando-se na aparência. Fingir que isso não é verdade não muda o fato. E tem mais: dificilmente conseguiremos fazer as pessoas pararem de julgar baseando-se na aparência; isso provavelmente exigiria uma engenharia genética universal.

Concordo em partes com o argumento de Wheeler: realmente é meio complicado um cara com uma aparência como a de uma cruza de um Buda com a de um profeta do deserto (como a de Richard Stallman) convencer os outros. Mas acho que existe um cuidado a se tomar: uma coisa que muitas vezes acontece e que é muito fácil de ser percebida é pessoas que não são tão boas ou talentosas assim serem consideradas mais do que pessoas que realmente conhecem da coisa, mas que não sejam tão bem arrumadas… Isso pode ser perigoso.
Para encerrar essa primeira parte, cito novamente Wheeler:

A regra é clara: defina quais são os objetivos mais importantes para serem atingidos por você e então ajuste a sua aparência (segundo seu estilo) para que ela o ajude a alcançar tais objetivos. A melhor roupa em geral vai depender de para quem você estará falando (particularmente para qual tipo de cultura você encontrará) e que tipo de evento no qual você irá aparecer. Em alguns eventos mantidos por instituições acadêmicas, aparecer com um terno e gravata fará com que você seja ignorado como um tapado. Do mesmo modo, em vários encontros/apresentações formais com oficiais do governo ou homens de negócio, aparecer vestindo jeans e camiseta irá significar que sua mensagem deve ser considerada pouco confiável, portanto será mais provável que eles façam exatamente o que você não quer.

Eu mesmo segui essa regra, procurando, na palestra que dei, estar mais apresentável do que normalmente sou (apesar de não ser sujo, às vezes tenho que admitir que fico muito desleixado). E por isso, a mensagem nossa acabou sendo ouvida.

Portanto, considero que, na realidade, é importante a imagem, mas ela não é tudo… Não adianta você “clonar-se” e ficar parecendo o Agente Smith do Matrix para achar que tá abafando. Como Wheeler disse, tudo vai depender de aonde você tá indo falar… “Pense nisso como um hacking social, ou como uma forma de amplificar dinheiro, se quiser.”
Acabado esse assunto, vamos para o próximo:
Em um artigo da Ars Tecnica, o vice-presidente de tecnologia da Real Networks (produtores do famoso Real Player) disse, sobre a questão do Linux não querer suportar sistemas de DRM:

A consequência do Linux não suportar DRM (Digital Rights Management) será que as únicas plataformas de entretenimento disponíveis serão equipamentos dedicados e PCs rodando Windows. O Linux será relegado a servidores e máquinas corporativas, já que não estaria provendo as tecnologias multimídia exigidas pelos consumidores.” (tradução retirada de Meio Bit | Ameaça Real: Sem DRM adeus Linux (Industria))

Vejamos… A primeira coisa é que o DRM é uma armadilha, quem já leu o livro “Cultura Livre“, de Lawrence Lessig (Editora Trama Universitário) sabe bem (leitura recomendável). Os sistemas de DRM são:

  1. Falhos: existem muitas formas, não interessa aqui se legais ou não, de contornar-se os sistemas de DRM;
  2. Draconianos: usuários portadores de necessidades especiais terão MUITOS produtos com sistemas com DRM. Por exemplo, pessoas cegas poderão não ser capazes de ler um ebook se o mesmo não estiver liberado de DRM (e, pela visão da indústria, não estará);
  3. Injusto: a coisa vai passar a ser assim: troquei de computador? Compro todas as minhas músicas de novo. Fui assaltado? Compro todas as minhas músicas de novo. E assim ad infinitum.

Agora, será realmente verdade que o Linux depende de beleza e de abaixar a cabeça para ser o que é?
Eu acho que não…
Há uma verdade: as grandes corporações querem tentar empurrar o relógio para trás, o que é basicamente nazista (se observada com atenção, a suástica nazista tem suas “pás” fazendo um movimento anti-horário). Claro que não vamos ganhar todas de uma hora para a outra. Mas sempre haverá acontecimentos como o caso do DVD Jon, que quebrou a criptografia do DVD (DeCSS) desenvolvendo legalmente um código de computador para legalmente assistir os filmes que ele legalmente comprou e que porque nenhuma grande corporação se dignou a desenvolver um player de DVD para o Linux ele não conseguia assistir. Graças a isso, ele, eu e muitos linuxers assistimos legalmente nossos DVDs comprados legalmente.
É claro que seria tolice imaginar que ninguém utiliza o DeCSS para fazer pirataria. Mas é como disse Jung “não há árvore que cresça apenas para cima. Quando ela ergue seus braços para cima, suas raízes continuam penetrando a terra.” Ou Nietziche: “Não olhe para seu monstros temendo tornar-se um deles. Quando você olha para o Abismo, o Abismo olha para você.”
O Linux não precisa disso para ser bem sucedido. O Linux já é bem sucedido. Quem já trabalhou ou viu um telecentro sabe do que estou falando. É hora de mostrar que o Linux não é uma onda, mas sim uma coisa nova, para o século XXI. Comportar-se bem e vestir-se corretamente? Pode ser. Sistemas com DRM? Quem sabe? Mas isso não vai mudar o fato de que o Linux é o que é, que ele chegou para ficar e para mexer nas coisas…
E esperamos que uma cultura mais livre surja, estimulada pelo Linux.

Comentários de uma palestra…

Bem, como eu disse, é um pouco difícil para eu manter um blog…
Primeiro, porque eu não sou do tipo de falar da minha vidinha patética… Segundo, eu tenho uma vida um pouco corrida.
Queria portanto comentar algo com relevância.
Essa semana, a minha faculdade teve uma Semana de Seminários para o meu curso (Tecnólogo em Desenvolvimento de Software), e um dos meus professores me convidou para ministrar uma pequena palestra sobre o GNU/Linux… Aceitei, é claro.
Inicialmente, achei que não ia dar em nada. Afinal de contas, conheço a resistência que muitos, inclusive na minha área, possuem quanto ao GNU/Linux. Além disso, no mesmo dia, no mesmo horário, houve um minicurso de Photoshop. Portanto eu, devo reconhecer que de certa maneira preconceituosamente, acreditei que a maioria do pessoal iria querer ir em Photoshop.
Qual não foi minha surpresa ao ver o pessoal assistindo a palestra e demonstrando um grande interesse pelo assunto. Eu mesmo fiquei abismado, embora a minha intenção fosse dar o melhor de mim. Junto com outros dois palestrantes (o Anderson, que mostrou um pouco de desenvolvimento Java em GNU/Linux, e o Adaílton, que mostrou um cluster HA em FreeBSD), todos estávamos interessados em oferecer o melhor.
Mas a maior surpresa que me esperava nesse caso foi no dia seguinte (quarta), quando um monte de gente, incluindo aí o professor que me convidou (Eduardo) e a coordenadora do curso (Dalva), me parabenlizou, junto com os demais, pela Palestra. Achei muito bom… E claro que também adorei ter meu ego massageado… 😛
De qualquer forma, eu achei fantástica as reações, pois comprova que GNU/Linux não é mais apenas uma curiosidade: é sim uma alternativa viável à Dominação da Microsoft.
Para aqueles que tiverem curiosidade, postei a apresentação usada no Internet Archive. Basta clicar em “All files” e aparecerá os arquivos para você copiar. Por enquanto, apenas em ODP (OpenDocument – OpenOffice.org 2.0) ou SXI (OpenOffice.org 1.0). Para aqueles ainda atrelados à MS, estou preparando um PowerPoint e um PDF para que possam descobrir a alternativa GNU/Linux.
Atualização: Como prometido, no mesmo link pode ser obtido o PowerPoint da apresentação, compatível com o PowerPoint 2000.
Atualização 2 (21/12/2006): Para quem quiser apenas ver a apresentação, abaixo segue ela publicada no ótimo site Slideshare.net: