BrOffice.org – ODF: O formato Inevitável

Em 1999, um cientista desejava ter acesso a alguns dados de amostras de solo de Marte coletadas em 1975 pela sonda espacial Viking. Ele desejava testar uma teoria sobre uma possível existência de bactérias e micróbios em Marte – ou seja, a existência de vida em Marte. O cientista pensou que ele poderia encontrar o que precisava em um dos diversos sites da NASA, mas não foi tão fácil quanto aparentava. Os dados originais não estavam onde se esperava, e quando as grandes fitas magnéticas que continham esses dados foram localizadas, eles estavam “em um formato tão antigo que os programadores que sabiam como ele funcionava haviam morrido”. Alguém então encontrou um conjunto de versões impressas dos dados que estavam servindo como peso de papel e o entendimento da humanidade quanto ao universo aumentou um pouco mais. O senso de tragédia que poderia ter resultado da perda de tais conhecimentos são ecoados em registros sobre a destruição da Biblioteca de Alexandria, e explica porque em uma sociedade sadia a queima de livros normalmente é vista como insanidade.

Claro que nem todos os dados perdidos ou inacessíveis armazenam pistas para a vida em Marte, e obviamente nem toda informação precisa ir além da vida do seu autor. Muitos documentos ilegíveis não farão falta, mas políticas públicas responsáveis exigem que documentos do governo – contratos, escritúras e registros processuais que têm força por décadas ou mesmo séculos – precisam ser arquivadas e estar disponíveis a todos. Seja como for, quando os dados são armazenados e compartilhados em formatos antigos ou obsoletos, com o tempo se tornará cada vez mais caro o acesso aos mesmos, sendo que eles podem até mesmo desaparecer.

Quando estamos falando de documentos que podem ser criados, armazenados e compartilhados digitalmente, a tecnologia para a prevenção do desaparecimento devido a formatos já existe e está tornando-se cada vez mais popular. Ela é chamada de Formatos para Documentos Abertos (Open Document Format – ODF) e se você ainda não o usa, algum dia irá usar.

O ODF é um formato de marcação de documentos baseado em XML que foi inicialmente desenvolvido em 1999 pela Stardivision e então no projeto OpenOffice.org, financiado pela Sun Microsystem. Concebido para ser uma alternativa a um software proprietário de manipulação de documentos, que então dominava completamente o mundo, a força motriz que impulsiona o ODF é a necessidade de um formato de documentos independente de fabricante ou de aplicação, que possa ser escrito e aberto por todos, sem a necessidade de royalties ou de licenciamento. Ele foi promovido com a idéia de que empresas e consumidores possam economizar dinheiro. Um formato aberto pode criar competição na esfera das aplicações de escritório. Todos os documentos podem ser abertos e compartilhados por todos. Não haveria perdas pelo tempo ou por mudanças em códigos proprietários ou pelas exigências de licenciamento. Informações de grande interesse público, como informações censitárias, informações sobre o clima, estatísticas sobre saúde, informações de investigações, registros jurídicos e informações de pesquisas científicas, pagas com os empostos dos contribuíntes, não precisariam mais serem escritas em um formato proprietário e fechado, obrigando os cidadãos a pagar duas vezes pelo acesso à informação que eles próprios produziram. Usando ODF, dizem seus proponentes, os documentos públicos permanecem sempre públicos.

A Organização para o Avanço dos Padrões de Informação EstruturadaOrganization for the Advancement of Structured Information Standards – OASIS) foi criada em 2002 para padronizar o formato, que foi reconhecido pela Organização Internacional para PadronizaçãoInternational Organization for Standardization – ISO) em 2006. Em Março de 2006 foi fundada a Aliança para o Formato Aberto de Documentos (Open Document Format Alliance) para promover o formato, criando condições públicas, legais e políticas para a adoção de padrões abertros de tecnologia por parte de instituições públicas egovernos.

– A Red Hat é um dos membros fundadores da ODF Alliance e Tom Rabon (Vice-presidente para assuntos corporativos) é parte do conselho executivo da organização. – diz Stephanie McGarrah, antiga Gerente de Políticas Públicas da Red Hat. – A Red Hat trabalha com os outros membros do conselho executivo para coordenar esforços e conversar com os governos de todo o mundo sobre o ODF.

Embora o ODF tenha sido lançado com um grande impulso derivado do bom-senso soprando forte, o momento para adoção em massa do formato foi enfraquecido pela inércia da burocracias, políticas locais, conceitos errôneos persistentes sobre a viabilidade do ODF (reforçados por oponentes do formato) e pelos “perigos” da adoção do formato. Muito do medo, incerteza e dúvida surgiram de uma fonte, cujos formatos proprietários são usados na maior parte dos documentos de todo o mundo.

Os oponentes do ODF não aceitam a sua adoção inevitávl, e ativamente fazem lobby contra ele. Não é que todos sejam contra o ODF per se, ou que tenham encontrado alguma razão real que questione a necessidade do mesmo. A lógica por trás do ODF e a transparência na sua criação é algo que dificilmente pode ser questionado. Na verdade, é a questão de padrões abertos que está por trás do ODF que é o alvo principal. Do ponto de vista dos detratores do formato, as coisas estão indo muito bem do jeito que estão atualmente. O “padrão” é deles, eles são donos do “mercado” de documentos, e pensam nele como um “território” “conquistado” de maneira limpa. Eles não conseguem imaginar um futuro sem esse “território” (isso sequer consta de seu plano de negócios), e já que todos utilizam suas aplicação e formatos, por que mudar? Os oponentes do ODF devotam recursos consideráveis no lobby de comissões de aconselhamento de TI tanto no Executivo quanto no Legislativo em uma tentativa de convencê-los de que a adoção do ODF na realidade limita a escolha e fere a eficiência do modelo de mercado ao “expulsar” empresas como eles. Eles afirmam que a migração é cara, e até mesmo argumentam que a adoção do ODF irá limitar o acesso público ao fatiar o ambiente de TI em milhares de formatos “incompatíveis”. E quem realmente confia em toda essa idéia de “gratuito”?

Mas os propontentes do formato, como a ODF Alliance, tem seus próprios argumentos, muitos deles partindo do princípio de refutação que diz que “Inicialmente, o oponente está certo…”

A ODF Alliance afirma que os padrões abertos na verdade promovem a escolha e a competição entre fabricantes ao definir as regras básicas do jogo. Os padrões são abertos e disponíveis livremente para que qualquer um possa implementá-los. Não existe nenhuma competição envolvendo o formato, e sim a aplicação que será usada para o manipular. Nesse universo, a melhor aplicação ganha. A ODF Alliance também aponta que implementar ou migrar para ODF não é mais complicado ou custoso do que a atualização períodica de uma versão de uma aplicação proprietária para a seguinte, e ao tornar a mudança para versões futuras mais simples, existe uma redução nos custos ao longo do tempo. Quanto à questão de disponibilidade de aplicações, o OpenOffice (e outras aplicações que seguem o ODF) podem ser copiadas da internet livremente e podem ser usadas já. Não existem questões de compatibilidade na realidade, dizem os defensores, apenas questões de não-cooperação.

– Acho que muitos governos não sabem da existência ou não têm um corpo técnico capaz de entender o valor do ODF. – explica McGarrah. – Portanto, o trabalho da aliança divulgar essa mensagem para as pessoas nos governos que possam tomar tais decisões.

Mas o principal argumento em favor do uso do ODF para documentos públicos é o fato de que é um melhor negócio para os cidadãos no longo prazo. Usar software proprietário e com padrões fechados para documentos públicos é como comprar uma privada de 10 mil dólares, ou proibir o governo federal de negociar preços melhores nos remédios a serem distribuídos pelo SUS, ou tentar suprir um exército e apoiar a reconstrução de antigos campos de batalha por meioo de contratos secretos, não licitados e não competivitivos. É a não competitividade em seu pior sentido.

Apesar da oposição, a adoção do ODF está indo em frente, devagar mas inexoravelmente, e conforme os governos vão entendendo melhor o ODF, o ODF vem desafiando a atual ubiqüidade dos formatos proprietários. Indo mais adiante, o Japão obrigou recentemente que todos os contratos de seus ministérios com vendedores de software fossem feitos de modo a envolver padrões abertos. Brasil, Polônia, Malásia, Itália, Coréia, Noruega, França, Holanda, Dinamarca, Bélgica, o Estado de Massachusetts nos EUA e o Estado de Dehli na Índia estão todos fazendo mudanças nas leis de forma a adotar o ODF e, provavelmente mais importante de tudo, reconhecer o imperativo de usar-se padrões abertos. A ODF Alliance continuar a armar e iluminar os legisladores com as informações e ferramentas que eles precisam para fazer recomendações e mudanças de políticas, mas ninguém que promova o ODF acredita que sua adoção em massa é iminiente. Ela levará algum tempo.

– Esses legisladores tem muitas outras coisas importantes para resolver, como saúde, educação, transporte, combate a pobreza e outros, portanto decisões sobre tecnologia não estão normalmente no topo de suas listas. – diz McGarrah – Já tivemos avanços quanto a uma maior adoção do ODF. Muitos governos adotaram o ODF e estão trabalhando na implementação do padrão, mas ainda há muito o que fazer.

Powered by ScribeFire.

Sobre Fábio Emilio Costa
Linux, Free Software, EMACS, Rugby, Indycar, Doctor Who, Harry Potter... Yep, this is me!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s