Se vai copiar…

Um programa de TV muito conhecido entre os jovens trás como lema: “Por que se vai copiar, copia direito, p%#$a!!!”. Parece que isso também tá começando a se aplicar à Microsoft.
Se você não sumiu do mapa nos últimos tempos ou não faz partes dos Outros ou do Projeto DHARMA, sabe que a MS vem batalhando para colocar seu formato de arquivo “aberto”, o Open Office XML (OOXML), como um formato padronizado pela ISO, da mesma forma que seu concorrente direto, o Open Document Format (ODF), adotado, entre outros, por KOffice, OpenOffice.org/BrOffice.orgStarOffice e TextMaker, além de adotado por sites como o Google Docs e o Fanfiction.net. Já teci uma série de comentários sobre esse assunto aqui mesmo nesse blog, mostrando porque acredito que a Microsoft deveria ser impedida de colocar seu formato OOXML, ao menos como está, como um padrão ISO. Quando 20 países questionam o seu formato, principalmente por motivos técnicos, existe algo realmente errado.
Indignada com isso, a Microsoft atacou sua antiga parceira e atual desafeta na área de tecnologia, a IBM, acusando-a de “bloquear os esforços para a padronização de um formato de documentos Office”, segundo a reportagem da CNet.com.
OK… Devagar com o andor que o santo é de barro. Vejamos o que a Microsoft tem para nos dizer, antes de comentarmos alguma coisa…
A Microsoft divulgou ontem (14/2/2007), um documento chamado “Interoperability, Choice and Open XML“, onde ela tenta explicar os bons motivos pelos quais ela levou seu formato a ECMA e de lá colocou-o no “fast-track” para padronização ISO. Logo de começo, a Microsoft tenta desqualificar quaisquer iniciativas de questionar os seus “padrões” e suas ações para os levar à padronização ISO (atenção, todas as traduções e grifos são do autor):

Interoperability, Choice and Open XML

Existe muito hype – e um jogo de cena para ofuscar a realidade – que cerca a questão da interoperabilidade atualmente. A melhor forma de atravessar tudo isso é focando-se no que está realmente acontecendo, o que realmente está sendo feito, ao invés de envolver-se em retórica.

Ou seja, se você conseguiu ler nas entrelinhas, deve ter percebido que a Microsoft é utilizar isso desenvolvendo uma ligação falaciosa entre os questionamentos que foram feitos não apenas pela IBM, mas sim por mais de 20 países ao redor do mundo, através de suas organizações de padronização, tentando demonstrar que os efeitos desses questionamentos são de mera retórica. Ele apela a preconceitos, adotando o conceito de retórica para isolar os fatos. E isso é apenas o começo.
Pouco abaixo, depois de uma tentativa de contextualizar os formatos Office e os produtos da linha Office da Microsoft como apoiadores de padrões, a MS coloca o contexto da “padronização” do OOXML junto à ECMA:

Interoperability, Choice and Open XML

Em resposta a esses apelos [de consumidores da Microsoft], a Microsoft e outras empresas pediram a padronização do Open XML. Nós submetemos-o à ECMA International, um órgão de padronização com grande reputação a mais de 46 anos. A ECMA formou um comitê técnico que representou diversos interesses, incluindo empresas de TI (Apple, Intel, Novell, Microsoft, NextPage, Toshiba), instituições governamentais com responsabilidade por arquivamento de documentos (the British Library, the U.S. Library of Congress)  e “power users” com necessidades sofisticadas em TI (BP, Statoil, Barclays Capital, Essilor). O comitê técnico trabalhou intensivamente durante um ano e por fim produziu uma especificação que alcançou seus objetivos definidos. A especificação original enviada ao comitê cresce de 2000 para 6000 páginas como resultado da exigência de que todos os aspectos do formato fossem completamente detalhados. A especificação permite a implementação do padrão em diversos sistemas operacionais e em ambientes heterogêneos e oferece compatibilidade retroativa com bilhões de documentos já produzidos.
Aqui, o que pode-se entender é que a Microsoft quer dizer basicamente o seguinte: nosso formato sempre foi mais usado, portanto merece ser padronizado. A idéia é simples: todo mundo usa DOC, portanto ele é melhor. Um Apelo ao Poder, uma falácia lógica simples de ser identificada. Ao mesmo tempo, a Microsoft joga nas costas do comitê da ECMA a responsabilidade por uma das “contradições” levantadas durante o processo de “fast-track” do OOXML na ISO, que era justamente seu tamanho quase monstruoso (seriam necessárias a leitura de mais de 200 páginas de documentos técnicos por dia para ler-se todas as 6000 páginas em 30 dias, o tempo de “contradição”), ao afirmar que isso foi resultado “da exigência de que todos os aspectos do formato fossem completamente detalhados“. Ao mesmo tempo, tenta desonerar-se de responsabilidade quanto à implementação, ao afirmar que o OOXML “permite a implementação do padrão em diversos sistemas operacionais e em ambientes heterogêneos“, sendo que uma das contradições detectadas foi o fato de existirem várias “pequenas iscas” no formato, pequenos problemas que, acumulados, poderiam inviabilizar o OOXML em outras plataformas, como o fato de o formato de cores utilizados no filtro SVG não seguir padrões da W3C, ou o fato de a formatação de tamanho de folha seguir uma codificação internamente relacionada ao sistema de Registro do Windows.
Continuando a leitura, vemos que a MS começa o ataque contra a desafeta IBM na seguinte instância:

Interoperability, Choice and Open XML

No dia 7 de Dezembro [de 2006], a ECMA aprovou a adoção do Open XML como um padrão aberto internacional. A votação foi quase unânima: de todos os 21 membros, apenas a IBM deu voto contrário. A IBM novamente foi voto perdido quando a ECMA também concordou em submeter o Open XML como um padrão para ratificação pela ISO/IEC JTC1. Alguns governos encorajaram a ECMA a procurar esse reconhecimento para permitir escolhas entre os padrões ISO/IEC JTC1, incluindo aí o Open Document Format (ODF).

OK. Aqui podemos perceber o que a MS quiz dizer, apelando à piedade do leitor: a IBM está tentando nos sabotar. Ela apóia o ODF e não quer que tenhamos um segundo padrão ISO! Primeiro de tudo: a MS não deveria querer que a IBM concordasse com isso. A IBM também é uma empresa, e uma concorrente da Microsoft. Se a própria Microsoft já acabou “detonando” iniciativas da IBM anteriores, ela não deveria ser naïf o bastante para querer que a IBM viesse com flores. Em segundo lugar, não há problemas com múltiplos padrões internacionais, desde que (1) eles sejam compatíveis entre si e/ou (2) possam ser rapidamente migráveis e interoperáveis. Quando você amarra aspectos de um padrão “aberto” a sua determinada implementação, incluindo aí artefatos de implementação (ou seja, formas de implementar específicas) em certos pontos, você não está auxiliando em nada a implementação. Não adianta muito a Microsoft afirmar que a sua OOXML está segundo uma “Open Specification Promise” (Promessa para Especificações Abertas) sendo que esses artefatos podem não estar na mesma iniciativa e podem até mesmo estar patenteados, o que tornaria inviável e ilegal sua implementação fora do ambiente MS. Poderia ser inocente e afirmar aqui que a MS está sendo vítima de suas próprias atitudes (e espero estar certo aqui), mas também pode ser o caso de haver, como muitos afirmam, uma armadilha da MS para obter um “padrão de um sistema só”.
Bem, vamos continuar. Em seguida, a carta aberta pela MS levanta questionamentos sobre o ODF:

Interoperability, Choice and Open XML

É importante reconhecer que o ODF e o Open XML foram criados com objetivos de projeto muito diferenciados e que eles são apenas dois dos muitos formatos padrões para documentos em uso atualmente, cada um deles com características que são atrativas a diferentes usuários em diferentes cenários.

Reconheçamos que aqui a MS marca um ponto: é realmente verdade que não existem apenas o OOXML e o ODF como formatos para trocas de documentos. Além disso, vários desses formatos (podemos aqui colocar HTML, XML puro, PDF, DocBook, LaTeX e outros muitos) são atrativos em determinados tipos de aplicações. Aqui não temos nenhuma novidade. O problema é o que se segue:

Interoperability, Choice and Open XML

O ODF está fortemente associado ao OpenOffice  e a produtos relacionados [NT: Aqui é uma referência ao StarOffice da Sun Microsystems, que utiliza o codebase do OpenOffice como base parea seu desenvolvimento] e reflete as funcionalidades desses produtos (…) O Open XML, por outro lado, reflete o grande conjunto de funcionalidades no Office 2007 [da Microsoft], oferece uma plataforma para cenários de produtividade para o usuário muito inovadores, por meio de schemas [formatos de documentos] desenvolvidos pelo usuário e foi desenvolvido tendo como objetivo a compatibilidade retroativa com bilhões de documentos.

Aqui existe um outro ataque falacioso, novamente na forma de um apelo ao preconceito, associado a um apelo à inocência.
Qual a questão aqui? O autor do documento ignora sumariamente que um dos objetivos do ODF foi o de prever funcionalidades comuns entre todos os aplicativos de produtividade Office (como transições em uma apresentação ou formatações em um texto) e designar formas padronizadas de especificá-las, sem entrar no mérito da implementação. Por exemplo: o jeito que o OpenOffice.org implementa, por exemplo, a formatação de um parágrafo não precisa ser necessariamente a mesma que é implementada pelo KOffice ou pelo Google Docs, desde que eles reconheçam as formatações do parágrafo conforme indicadas no ODF. A idéia é: o ODF fala o que fazer. Como isso será feito é questão de cada implementação. No caso do OOXML, o objetivo é determinar como as coisas serão feitas e não porque elas devem ser feitas.
Continuando na leitura do documento, a MS alega que são formas diferentes de alcançar diferentes necessidades, e isso é inquestionável, conforme já disse. ODF e OOXML são inegavelmente diferentes e voltados para objetivos distintos.
Em seguida, a MS tenta mostrar-se desfavorecida, em um apelo à piedade:

Interoperability, Choice and Open XML

Quando o ODF estava sob análise [da ISO/IEC JTC1], a Microsoft não interferiu no processo, tentando freá-lo, pois entendemos o interesse dos consumidores na padronização dos formatos de documento. De forma muito diferente, durante o período inicial da análise do Open XML pela ISO/IEC JTC1, a IBM liderou uma campanha global clamando aos órgãos nacionais [de padronização] que obrigassem a ISO/IEC JTC1 a sequer considerar o OpenXML, uma vez que o ODF passou primeiro pela ISO/IEC JTC1 first – em outras palavras, que o Open XML sequer fosse considerado por seus méritos técnicos porque um padrão concorrente já havia sido adotado

Na realidade, já foi dito aqui mesmo nesse post que não existe nada intrinsicamente errado por parte da MS em colocar seu OOXML como padrão. Ela precisa sobreviver como empresa e lhe é interessante isso, e com certeza seria interessante a muitas pessoas. O maior problema é que a forma como isso foi apresentado é simplesmente errada! Com uma série de pequenas “minas terrestres” implantadas no padrão, não há como afirmar o que poderia acontecer se o padrão passasse pelo fast-track “ileso”. Qualquer um que tenha lido uma documentação técnica sabe o quão complexo é o processo: fazer uma leitura de documentação técnica de 6000 páginas em apenas um mês é uma tarefa hercúlea. Acho que a MS poderia ter sido um pouco mais complacente e solicitado mais tempo para uma melhor investigação. Se seu interesse é realmente o consumidor (e espero realmente que seja, para bem deles) esse tempo extra permitiria uma melhor investigação e sugestão de mudanças ao formato.
Agora vem o centro da questão, que é o momento onde a Microsoft “solta os cachorros” contra a IBM:

Interoperability, Choice and Open XML

Essa campanha para parar totalmente a análise do Open XML na ISO/IEC JTC1 é uma tentativa crassa de usar o processo de padronização para limitar a escolha do mercado por motivos comerciais dissimulados – sem considerar os impactos negativos às escolhas do consumidor e a inovação tecnológica. Não é coincidência que o Lotus Notes da IBM, que ela vem promovendo no mercado, falha ao suportaro padrão Open XML. Se bem sucedida, a campanha para bloquear a análise do Open XML poderá criar uma dinâmica na qual a primeira tecnologia que chegar aos órgãos de padronização, independentemente dos méritos técnicos, irá forçar com que os demais sejam sequer analisados. O esforço da IBM em forçar o ODF aos usuários por meio de “procurações” é uma iniciativa para restringir a escolha. Nos formatos de arquivo baseados em XML, que podem ser facilmente interoperados por meio de tradutores e serem implementados lado a lado em softwares de produtividade, essa exclusividade não faz o menor sentido, exceto para aqueles que não possuem confiança em sua habilidade para concorrer no mercado com os méritos técnicos dos padrões alternativos. Essa campanha para limitar a escolha e forçar seu padrão individual aos consumidores precisa ser enfrentada.

Um ótimo discurso por parte da Microsoft. Ela poderia ter pensado nisso quando não ofereceu suporte ao ODF no MS Office 2007, demandando que um filtro fosse construído a posteriori e por um terceiro. Ela também poderia ter pensado nisso ao colocar tantas armadilhas no processo que, para azar dela, acabaram se transformando em uma espécie de “fogo amigo” contra si própria, uma espécie de “corredor polonês” de armadilhas que impediram uma trilha rápida (sim, a piada com fast-track foi intencional.😛 ). Ela adotou uma série de caracteristicas nesse processo descrito na carta que demonstram que não houve por parte da mesma o interesse em oferecer um debate sobre (1) a necessidade de um novo padrão e (2) melhorias nesse padrão que poderiam inclusive ajudar a MS.
Existem ainda muita coisa envolvida, que o leitor poderá procurar entender. Andy Updegrove, consultor norte-americano especializado em padrões, colocou em seu blog uma série de informações que podem ser úteis para a leitura desses eventos com mais calma. Na Groklaw, você pode ler mais sobre os questionamentos levantados contra o OOXML como foi enviado à ISO. A Microsoft também não é muito feliz nisso, pois uma outra proposta de fast-track, envolvendo o C++/CLI (C++/Common Language Infrastructure) conhecido pelo mome comercial de C++.Net, acabou não passando pela ISO, pois recebeu uma série grande de contradições, inclusive do criador da linguagem C++, Bjarne Stroustrup.
O autor desse blog não é pura e simplesmente contra o OOXML. Como disse, concordo com alguns pontos apresentado nessa carta da MS, mas acho que ele, na verdade, é um grande FUD desenvolvido pela Microsoft para tentar fazer-se de vítima. É importante que você, leitor, saiba o que está acontecendo, o porquê das “contradições” contra o OOXML, antes de dizer que é contra o OOXML.
Eu continuo apoiando ODF, pois é um formato elegante (700 páginas), simples e livremente disponível, que está cada vez mais recebendo apoio e ferramentas para desenvolvimento. Além disso, ele é totalmente patent-free, sem armadilhas para amarrar você à Sun, IBM ou qualquer outra empresa. Compare tudo o que você irá descobrir sobre o OOXML (a Wikipédia é um ótimo ponto de partida) e você irá “chegar aos fatos” (sim, a piada com get the facts foi intencional).
Acima de tudo, enfrente o OOXML enquanto ele se oferecer lotado de armadilhas que poderão prejudicar a todos, inclusive a você.

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Sobre Fábio Emilio Costa
Linux, Free Software, EMACS, Rugby, Indycar, Doctor Who, Harry Potter... Yep, this is me!

One Response to Se vai copiar…

  1. pauloerweber disse:

    Cheguei no seu blog através do seu comentário no meiobit. Muito bom o seu artigo mas acho que os gaiatos de lá dificilmente irão ler. É muita coisa pra cabecinha deles. Muitos leitores de lá preferem um artigo como o da Fabiane, em que um assunto técnico é tratado superficialmente e como uma questão de gosto pessoal.

    P.S.: Não seria interessante liberar os comentários para quem não está logado?

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