Inclusão digital: ferramenta para o desenvolvimento

Uma pessoa presa a uma cadeira de rodas, na Vila Curuçá. Um garoto de 17 anos, de Cidade Tiradentes. Uma catarinense de 74 anos, também moradora de Cidade Tiradentes. Um peruano refugiado, morador de Guaianases. Um advogado bem sucedido, que mora próximo à Rodovia Raposo Tavares. Um garoto de 23 anos, da Cohab Parada de Taipas. Uma família moradora do Parque do Carmo. Um senhor de 41 anos, de Vila Brasilândia. O que todos eles tem em comum, além de morarem em bairros de periferia da cidade de São Paulo (à exceção do advogado)?

A resposta é: Telecentros. Vinte computadores com acesso à Internet em banda larga, cursos de uso de computadores e possibilidade de uso livre dos mesmos sem custo.

Carlos de Macedo, da Vila Curuçá, provavelmente seria apenas mais um desses milhares de portadores de deficiência que temos no Brasil. Cléber Santos,o jovem da Cidade Tiradentes, talvez tivesse conhecido alguns traficantes, não um dos maiores programadores de todo o mundo. A senhora Mafalda Judith Dal Pozzo, a catarinense moradora de Cidade Tiradentes, muito possivelmente estaria “jogada às traças”, como a maior parte dos idosos em nosso país. Alejandro Lara, o peruano de Guaianases, poderia estar totalmente alienado com relação à sua terra natal. O advogado Caio Sérgio Serroni, talvez seria mais um advogado plenamente alienado em relação ao nosso país. Cleideneide de Oliveira, o jovem de Parada de Taipas (sim, o nome é dele), talvez fosse mais um jovem enchendo as estatísticas policiais e as telas do “Cidade Alerta” e do “Brasil Urgente”. A família de Dulce e Manoel Apolinário de Souza simplesmente poderia estar gastando seu tempo assistindo Ratinho e outras coisas similares. E Cláudio Vieira poderia ser apenas mais um “peão” da construção civil, apenas mais um.

Mas os Telecentros mudaram a vida de todos eles.

Carlos, depois de participar dos cursos nos Telecentros, tornou-se parte de um importante projeto para a inclusão digital de deficientes físicos. Cléber foi elogiado por Richard Stallman, ex-pesquisador do MIT e fundador do projeto GNU e do Movimento do Software Livre, por sua persistência e vontade de programar. Mafalda pode passar a se corresponder com parentes seus espalhados por lugares tão longes e tão diferentes da realidade de Cidade Tiradentes quanto o Paraná e os Estados Unidos. Alejandro pode tanto receber como enviar notícias para seu primo no Peru. Caio tornou-se um apaixonado pelo projeto dos Telecentros, passando tais valores, assim como os do escotismo (outra de suas paixões) aos seus filhos. Cliedeneide pode arrumar amigos e se socializar, mesmo com dificuldades, ao ponto de um deles lhe ajudar a conseguir um emprego. Os senhores de Parque do Carmo puderam ampliar seus conhecimentos e passar a dialogar melhor com a filha Helena. E Cláudio, de servente de pedreiro e ex-cobrador da CMTC, tornou-se auxiliar técnico do Governo Eletrônico, recuperando a auto-estima e a vontade de lutar.

Vidas mudadas por um telecentro. Destaques da importância da inclusão digital.

Quando fala-se em inclusão digital, todos imaginam que seja importante apenas pela questão do analfabetismo funcional. E, claramente, isso é importante. Castells, em sua verdadeira obra-referência “A Sociedade em Rede”, mapeia mudanças nas nossas estruturas sociais para uma tendência de um mundo informacional, aonde todas as operações sócio-político-culturais passarão por redes de informações. Não necessariamente redes digitais, as com enorme participação delas. E Castells, embora quem melhor tenha feito tal análise até agora, não foi o único. Partindo da “Terceira Onda” de Toffler até a “Sociedade Pós-Capitalista” de Drucker, passando pelo “Paradoxo Global” de Naisbitt, todos eles mostram que nossa sociedade está em um processo de mudança de grande porte, no mínimo comparável às mudanças sociais que romperam o feudalismo na Revolução Industrial.

Porém, se imaginarmos que realmente há uma revolução tão grande, não podemos deixar os estratos mais pobres da sociedade de fora, incorrendo no risco de, combinando-se a globalização atual, realizada segundo um modelo que Boaventura de Souza Santos define como “globalização hegemônica“, aonde há um “conjunto de trocas desiguas pelo qual um determinado artefato, condição, entidade ou identidade local estende a sua influência para além das fronteiras nacionais e, ao fazê-lo, desenvolve a capacidade de designar como local outro artefato, confição, entidade ou identidade rival.” (SOUZA SANTOS APUD SILVEIRA, 2001), à exclusão digital, ela própria já proviniente, de certa maneira, da exclusão social vivida em todo o mundo, mas mais flagrantemente nos países em desenvolvimento, potencializarmos uma “constituição de uma nova classe dirigente, composta dos administradores, formuladores e executores da telemática, (…) uma sociedade partida entre info-ricos e info-pobres”, como definido por Arthur Kroker e citado por Ségio Amadeu da Silveira (SILVEIRA, 2001). Essa sociedade será potencialmente mais difícil de ser rompida, já que a informação passará cada vez mais um recurso primário social, como citado por Sérgio Amadeu da Silveira, citando Anthony Smith em Geopolitics of Information (SILVEIRA, 2001).

Dessa forma, é imprencidível analisar a inclusão digital como não apenas formação de mão-de-obra para o mercado de trabalho, incorrendo no erro de outros tantos projetos de “inclusão social”. Pois, embora o emprego e o trabalho sejam realmente ferramentas para a inclusão social, a partir do aumento da auto-estima e da participação da pessoa na sociedade, essa inclusão no mercado de trabalho é apenas um dos componentes para uma legítima inclusão social. A inclusão social deve também permitir a participação da pessoa em todos os seus direitos, inclusive o direito à liberdade de expressão. E, em nosso período atual, liberdade de expressão envolve o acesso e a troca de informações através dos meios digitais em geral, e via Internet em particular.

Não é possível esperar por uma ação do mercado. O mercado é regido pelo lucro e pela lei da oferta e da demanda. Principalmente em nosso mundo neoliberal, não podemos ficar esperando o mercado decidir quem pode o que e quando, o que pode acabar dando aos extratos mais pobres de nossa sociedade apenas o high trash, não o high tech, o lixo digital. É necessário realizarmos a mesma constatação definida por Silveira: “o mercado não irá incluir na era da informação os extratos pobres e desprovidos de dinheiro.” Isso porque, sendo regido pela ótica capitalista, o mercado visa o lucro e a acumulação de riqueza, o que vai de encontro à necessidade “altruística” que precisa ser identificada para a verdadeira inclusão de tais populações.

Portanto, resta aos governos e ONGs realizar tal inclusão digital.

Podemos imaginar isso de várias formas, inclusive com a participação do mercado. Mas é importante que as rédeas de tal desenvolvimento estejam nas mãos dos governos e das ONGs, de modo que tais projetos não sejam usados pelo mercado como um meio de aumentar a tecno-dependência dessas populações, entendendo-se tecno-dependência como a dependência de uma pessoa ou grupo de pessoas de uma determinada peça de tecnologia para execução de suas atividades, mesmo havendo peças similares tão eficientes quanto à peça na qual o grupo é dependente.

Mas, mais importante, é necessário que tais projetos sejam enraizados nas necessidades das populações em questão, e ao mesmo tempo devendo oferecer-lhes a chance de ver os tipos de expressão que elas poderão exercer por meio da comunicação por meios digitais.

A inclusão digital é importantíssima, poderíamos dizer fundamental, para a formação de uma sociedade crítica para o século XXI. Pelos exemplos que introduziram esse texto, citados no livro digital “Toda essa Gente”, do Governo Eletrônico de São Paulo, podemos ver o poder de inclusão que as mídias digitais e a Internet oferecem. Salas de vinte computadores, com acesso em banda larga, de alta velocidade, à Internet permitiram todas as mudanças de vida citadas anteriormente. Jovens tendo oportunidades de crescimento. Adultos desempregados recuperando o emprego. Senhores ganhando auto-estima. Populações normalmente esquecidas nos grotões de nosso país que ganham uma chance de exporem sua voz, normalmente esquecida pela grande mídia e pelas elites de nosso país.

É importante agir. O Brasil já ficou de fora de várias revoluções e de várias mudanças. Não podemos deixar esse bonde passar. Não podemos isolar mais ainda nossos pobres. Ou incorriremos no risco de nos tornar definitivamente uma mera “república de bananas”.

BIBLIOGRAFIA:

SOUZA SANTOS, Boaventura de (org) – A Globalização e as ciências sociais APUD SILVEIRA, Sérgio Amadeu da – Inclusão Digital, Software Livre e Globalização Contra-Hegemônica IN SILVEIRA, Sérgio Amadeu da; CASSINO, João (org) – Software Livre e Inclusão Digital, São Paulo: Conrad, 2001

SILVEIRA, Sérgio Amadeu da – Inclusão Digital, Software Livre e Globalização Contra-Hegemônica IN SILVEIRA, Sérgio Amadeu da; CASSINO, João (org) – Software Livre e Inclusão Digital, São Paulo: Conrad, 2001

CASTELLS, Manoel – A Sociedade em Rede, São Paulo: Paz e Terra, 2003

TOFFLER, Alvin – A Terceira Onda, São Paulo: Record, 1986

DRUCKER, Peter – A Sociedade Pós-Capitalistas, São Paulo: Campus, 2000

CASSINO, João (Org) — Toda Essa Gente, São Paulo: Prefeitura Municipal de São Paulo, 2003, disponível via Internet em http://www.rau-tu.unicamp.br/nou-rau/softwarelivre/document/?code=86, acessado em 15 de outubro de 2004

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Sobre Fábio Emilio Costa
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3 Responses to Inclusão digital: ferramenta para o desenvolvimento

  1. Messias disse:

    Gostei muito do artigo, ficou ótimo, percebbemos o quanto o Brasil, o mundo é desigual quando se refere em dividir tecnologias. Estamos em um sitema que exclui até aqueles que já estão incluídos,,, vence o melhor ou seja vence quem tem melhor poder de persuasão,mais bala na gulha,,,estamos no Brasil… mas acredito que com uma juventude mais conciente e dedicada a i]ensinar para os que necessitam seremos melhor,, já que nunca seremos ótimos..
    Gostei muito mesmo,, estou trabalhando em um projeto de inclusão digital para deficìêntes Visuais,,e gostria de ajuda(opnião sobre melhores softwares e como regulamentar tal projeto)../
    Obrigado..

  2. Ramon Dias disse:

    Estou querendo fazer minha monografia com o tema “linux como ferramenta de inclcusão digital”, gostei muito desse artigo. Gostaria de saber se vc tem algo a mais sobre esse assunto, alguns sites de pesquisa ou materias que possam me ajudar no desenvolvimento de meu trabalho final.

    grato.

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