Revista Veja, Software Livre e Falácias

Como não poderia deixar de ser, a revista “Veja” continua atacando toda atitude do governo atual. No caso atingindo o Software Livre. De maneira extremamente simplista, ela afirma que o fato do governo federal ter apoiado o software livre causou queda do Brasil no ranking dos países que melhor usam TI.

OK… Vamos por partes:

O fato de apoiar o SL não implica necessariamente em queda de produção, senão não teríamos casos como o da NASA, HSBC, Carrefour, Casas Bahias, Pixar, entre outras, tendo tanto sucesso utilizando tecnologia de FLOSS. Na realidade, há pouco investimento nos profissionais nacionais. A maior parte dos profissionais nacionais são pouco preparados para lidar com tecnologias inovadoras. Na realidade, são poucos os profissionais brasileiros preparados para trabalhar com tecnologia em geral, conhecendo premissas básicas de engenharia de software e outros conceitos. Na maioria do empresariado e dos políticos brasileiros, é preferível mandar o dinheiro brasileiro para Redmond e/ou para Bangalore do que investir esse dinheiro no Brasil, na qualificação do profissional de informática do Brasil.

Além disso, a matéria, em um de seus quadros afirma categoricamente:

Ao presentear países vizinhos com programas produzidos pelo governo federal, Lula tirou mercado de empresas brasileiras.

Isso é um erro de quem não conhece Software Livre: na prática, o software produzido e “cedido” em Software Livre não é cedido. Apenas seu pagamento pode vir por outras formas: consultoria, códigos, documentação… Ou seja, tudo isso tem a ver com outras questões, e não apenas de caráter financeiro

Além disso, temos que imaginar que tem pessoas de outros países produzindo e cedendo código por esse mesmo sistema. Temos finlandeses (Linux), Americanos (GNU,OpenOffice.org,…), Alemães (KDE, MySQL), Holandeses (Python/PHP), Dinamarqueses (Rails), e pessoas de todos os cantos do mundo trabalhando nesse grande multirão de desenvolvimento de software chamado Software Livre. E o Brasil está usando software desses países e contribuindo com eles e ao mesmo tempo formando profissionais nacionais capazes de lidar com ele, o que é comprovado pelos casos de Marcelo Tosatti, Alfredo Kojima, Hélio Chissin, Alexandre Oliva, entre outros, estão para provar

O fato de empresas de outros países estarem usando o software produzido no Brasil de maneira livre não implica em que elas não irão pagar nada por ele. Muito provavelmente esses países irão acrescentar coisas ao software. De repente, Argentinos desenvolverão documentação, peruanos acrescentarão códigos, venezuelanos irão depurar. E isso tudo poderá ser acrescentado (na maior parte dos casos) ao software produzido no Brasil.

Mesmo sendo petista, tenho que admitir que SL não pode ser reduzido a um movimento puramente partidário. Existem pessoas mexendo com SL por todos os motivos: altruísmo genuino, ganhos financeiro, conhecimento, expressão artística, aprendizado, desafio, ou até mesmo a pura falta do que fazer!😛 Portanto, o argumento da Veja:

A oposição aos programas comerciais – leia-se aí a Microsoft, fabricante do sistema operacional Windows e a maior empresa mundial de software – é uma bandeira do PT.

É falacioso: se chama generalização

A mesma linha contem outra falácia:

A posição está baseada, em parte, na desconfiança ideológica que o partido nutre em relação às grandes corporações capitalistas.

Essa falácia é chamada de ataque ao homem e inclui também generalização e linguagem preconceituosa. Não existe nada que impeça o governo Lula de usar Software Proprietário. No caso, foi feita uma opção pelo Governo Federal em utilizar software livre.
A matéria também desonera o fato do tratamento que é dado ao software proprietário e a tendenciosa predileção por ele. Se não pode existir predileção pelo SL, por lógica também não pode existir pelo Software Proprietário.
Perceba uma questão também, no primeiro parágrafo citado:

A oposição aos programas comerciais – leia-se aí a Microsoft, fabricante do sistema operacional Windows … (Grifo meu)

Perceba que menciona-se de maneira estranha a Microsoft, em outra falácia lógica (regra pela exceção), que mostra que “todos os softwares comerciais” estão sendo prejudicados, mas na prática é uma questão isolada da Microsoft e de empresas que se associaram diretamente a ela. Existem casos de convivências mais ou menos saudáveis entre o Software Proprietário e Software Livre (e os xiitas vão me matar por dizer isso). IBM, Sun, Oracle, Cisco, Novell, Sybase, Informix, CA… Todas elas são grandes empresas também, tão grandes quanto a MS.

Existe muito que não se fala nesse debate e que a revista Veja, famosa pelos seus “argumentos” e conhecida como um exemplo do que não se fazer como jornalismo (pergunte no Observatório de Imprensa) simplesmente se fez de muda, o que é estranho se considerarmos que o Grupo Abril se beneficia do SL (e creio que não pagou a nenhuma consultoria por isso), como é divulgado pela própria Info Exame (revista do grupo focada em TI). Foco-me nas questões de:

  • Como foi a opção do governo pelo SL;
  • O que levou o país a cair em ranking;

Na primeira questão, gostaria de citar o blog do Fábio Luis (Falcon_Dark):

Livre Acesso por Falcon_Dark

Nenhum governo pode dar-se ao luxo de desconfiar de grandes corporações capitalistas, seja ele brasileiro ou não. Verifica-se facilmente isso buscando informar-se sobre quais são os fornecedores de suprimentos, equipamentos, insumos, software e treinamento do governo. Diversas multi-nacionais estão entre os fornecedores do governo, grandes corporações capitalistas, não só para TI, mas para várias outras áreas. Dizer que o governo opta pelo software livre porque desconfia de grandes corporações é enganoso. Os motivos pelos quais o governo decidiu-se pelo software livre estão listados e explicados publicamente, exatamente para que um debate adulto possa se desenvolver sobre o tema. Talvez o governo anterior não tenha feito esta opção pelo SL porque à época ele não estava maduro o suficiente para os padrões determinados. Talvez o governo anterior tenha decidido que, na época, o custo de implementar SL ainda fosse maior. O fato é que o governo anterior usou software proprietário em escala porque achou que era melhor assim, o atual optou pelo software livre por pensar da mesma forma, ambos agiram como empresas agem quando escolhem o que adotar. É claro que existe um manto ideológico ao redor do SL, e também um manto político. E não é assim com todo o resto, principalmente no tocante à administração pública?

O viés ideológico existe? Sim, realmente existe. Mas o que também existem é:

  1. O amadurecimento contínuo do SL. Temos diversas ferramentas poderosas desenvolvidas “de graça” por pessoas de todo o mundo, como GNU/Linux, OpenOffice.org (que roda em Windows também), as ferramentas Mozilla (Camino, Seamonkey, Thunderbird e Firefox – e que roda em Windows também), o editor GNU EMACS (que roda em Windows também), o editor de imagens GIMP (que… bem, você entendeu o recado). Perceba que “de graça” está entre aspas pois (1) o software livre é livre, mas não necessariamente de casa e (2) quem usa software livre acaba invariavelmente pagando, com tempo de estudo, documentos, apostilas, palestras, e até mesmo em dinheiro…;
  2. Experiências bem sucedidas com o uso de Software Livre para redução de custos e viabilidade tanto técnica quanto social da TI. Casos como os dos Telecentros (São Paulo e Porto Alegre) e de Rio das Ostras e do Paraná (curiosamente citado na matéria da Veja, mas sem mencionar o software livre), e de empresas como Renner, Casas Bahias, Carrefour e Pão de Açúcar comprovam que o Software Livre é viável e que vem fornecendo mercado para muitas empresas de consultoria;

Mas, então, porque cargas-d’água o Brasil caiu em ranking. Vejo isso por dois fatores:

  1. Há muito pouco investimento em educação no Brasil, e menor ainda nas TIC: nós não aprendemos a utilizar o melhor potencial do SL, que é o código, para aprendermos e melhorarmos (e contribuirmos, como é a regra do jogo). Muitas vezes, para nós, o que vale é que as coisas “custam 10 reaus” na barraquinha ching-ling (perceba que mesmo aqui não temos brasileiros😦 ). Nossas faculdades não ensinam aos alunos fundamentos básicos de estudo de código ou de desenvolvimento que permitam que o mesmo explore os conhecimentos em potencial armazenado dentro de códigos que custariam milhões de dólares e que estão disponível livremente para estudo. Citando o estudo de David A. Wheeler, pesquisador norte-americano, More than a Gigabuck: Estimating GNU/Linux’s Size

Particularmente, custaria mais de 1 bilhão de dólares desenvolver esta distribuição GNU/Linux (NT: no caso, a Red Hat 7.1, com todos os pacotes incluídos nela) pelos meios proprietários convencionais nos estados unidos. (….) Além disso o Red Hat Linux 7.1 inclui mais de 30 milhões de linhas reais de Código (Source Line of Code – no caso, descontando-se linhas de comentários e afins), enquanto o 6.2 continha 17 milhões de linhas. Usando a métrica e modelo de custo COCOMO (NT: métrica usada em engenharia de software para estimativas de custo de um software), esse sistema exigiria algo em torno de 8 mil anos-pessoa de tempo de desenvolvimento (comparando-se com os 4.500 anos-pessoa da versão 6.2) (…). Isso tudo graças a um crescente número de programas de software livre/código aberto maduros ou em amadurecimento disponíveis ao redor do mundo. (Tradução minha).

Perceba que estamos falando aqui de mais de 1 bilhão de dólares em valor econômico, pronto para qualquer um usar e, melhor ainda, aprender com ele. São 8 mil anos-pessoa em código disponível para qualquer um que possa entender esse código, o que deveria ser o caso de qualquer um com uma formação universitária em TI (ou, ao menos, qualquer um com formação técnica e dedicação). Mas isso não está acontecendo. Estamos (para variar), perdendo o trem da história.

  1. Iniciativas de inclusão digital das pessoas não vem sendo tomadas ou, quando tomadas, são de maneira pouco crítica e sem respeito a necessidades locais. Projetos como o FUST estão engavetados, por pressões provocadas por causa de decisões políticas equivocadas, muitas delas que procuravam, de maneira capciosa, favorecer a Microsoft. Claro que ela não poderia deixar barato. Citando novamente o Fábio Luis:

Se em lugar de falar de software estivéssemos falando de carros, por exemplo. Poderíamos dizer que uma licitação que busca comprar automóveis de 4 portas deve excluir veículos de 2 portas por definição. Uma empresa que só fabrica automóveis de 2 portas poderia afirmar que o governo não pode pedir carros de 4 portas apenas porque ela não os fabrica? Obviamente não. Mas a Microsoft afirma que o governo não pode querer comprar software livre porque isso a exclui da licitação. Em lugar de oferecer um produto dentro dos parâmetros técnicos que o comprador exige a Microsoft busca mudar as expectativas e necessidades do cliente para que ele compre o produto que ela fabrica.

Em meu post anterior, disse que uma das coisas que me atraiu ao GNU/Linux era justamente isso: ele se adapta a mim, não eu a ele. É ele que tem que atender minhas necessidades, não eu às suas exigências. E parece que nosso amigo Falcon_Dark está de acordo:

Livre Acesso por Falcon_Dark

Uma padaria que precisa de um sistema operacional para seus caixas compra o mesmo software que uma empresa aérea para seus balcões de atendimento. Provavelmente a empresa aérea tem mais chances de conseguir algum tipo de adaptação funcional para seus sistemas, ainda que certamente a pequena padaria pagará um preço maior por cada cópia adquirida. Ao comprar um Windows você paga um preço cobrado pelo desenvolvimento de tudo que está naquela caixinha, não importa se você vai usar aquilo ou não. Talvez você não rode aplicações legadas de Windows95, mas o código para elas está lá em algum lugar e você foi cobrado por elas. (…) O modelo do software livre é mais moderno e busca estar mais atento às reais necessidades do cliente. Em qualquer software livre você pode não só adicionar coisas que seu negócio precisa, mas também pode retirar coisas que você não precisa, o que pode tornar o software bem mais barato. Ainda que a pequena padaria não queira pagar um fornecedor para adaptar um Linux para suas necessidades, ela ainda conta com mais três alternativas. A própria padaria pode adaptar o software, se algum funcionário seu souber como fazer isso. Ela pode pagar para um profissional autônomo fazer isso, o que talvez seja mais barato que as duas alternativas anteriores. Ou ela ainda pode conseguir executar a alternativa mais barata de todas, que é encontrar por aí, na internet, um software que já esteja pronto porque uma pequena padaria de Lisboa passou por esse processo antes, e como o software é livre você pode usá-lo sem problemas.

Justamente aqui reside a oportunidade: “Ela pode pagar para um profissional autônomo fazer isso“. Ajustar conforme a necessidade. Com o código, o Céu é o Limite. Existe muito mercado aí em customização de SL, e é entrando nesse mercado que está o bolo. Treinamento e suporte são muito requisitados, e aí está um filão bom e muito interessante para trabalhar-se com SL, até mesmo porque a própria MS não oferece eternamente suporte (o Win98 perdeu esse ano o suporte oficial). É uma tolice não treinar, mas o treinamento, quando visto como investimento, possui grandes compensações e permite uma fácil depreciação e diluição do custo no tempo, muito mais do que a mera compra de licenças (caixinhas). Um bom acordo do tipo SLA (Service Level Agreement – Acordo de Nivel de Serviço) pode ser uma solução que (1) ajuda o cliente a reduzir seus custos no SL, (2) permite um aumento nos lucros da empresa prestadora de suporte, através de satisfação do cliente e rápida resposta e (3) permite um grau enorme de “coopetição”, aonde as empresas colaboram entre si e competem entre si, mostrando seus diferenciais mas socorrendo nos momentos de maior necessidade.
Essa é a oportunidade que o Brasil tá perdendo, por falta de capacitação de seus profissionais, não pelo uso de SL.
Espero que tenha ficado clara minha posição… Por favor, comentem e concordem, discordem, acordem ou recordem, mas enfim, não fiquemos parados!

Technorati Tags: , , , ,

powered by performancing firefox

Sobre Fábio Emilio Costa
Linux, Free Software, EMACS, Rugby, Indycar, Doctor Who, Harry Potter... Yep, this is me!

One Response to Revista Veja, Software Livre e Falácias

  1. É uma boa resposta, bem explicada.
    Parabéns pelo texto.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s