Software livre, faculdades e capacitação

Recentemente (13 de Abril), o Ricardo (do blog Technix, leitura recomendável) estava escrevendo sobre a Profissionalização do mercado do GNU/Linux. E os comentários que ele faz são realmente pertinentes:

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Foi o tempo em que Linux e software livre eram coisa de profissional divertindo-se em seu tempo livre. A noção de que o Linux, o OpenOffice, Apache, Firefox e outros foram desenvolvidos nos finais de semana por gente trabalhando de graça ainda existe, mas está indo por terra. Cada vez mais grandes empresas de TI investem para transformar o software livre em um modelo de negócios sólido. O resultado disso é que software livre já concorre em muitas áreas em pé de igualdade com softwares proprietários. A medida que esse quadro se desenha fica mais claro que o nível do profissional de software livre precisa acompanhar o rítmo do mercado. É possível ganhar dinheiro e fazer carreira na área, mas a profissionalização é importante para conseguir uma boa oportunidade de trabalho.

E isso é muito bom, pois existe muita gente que dedica muito tempo de sua vida aprendendo as nuances do GNU/Linux, procurando se destacar, se diferenciar, crescer e oferecer algo inovador como profissional. Quem não pensa sobre SL em sua corporação pode acabar se dando mal mais cedo ou mais tarde…

A rede de supermercados Extra do grupo Pão de Açucar é um exemplo. Em uma entrevista que tornou-se emblemática para a Info Exame em 2002 o encarregado de TI do grupo, Sr. Silvio Laban afirmou “Linux nem com um 38 na cabeça”. Alguns meses depois, com a troca da equipe de TI do Pão de Açucar o grupo varejista anunciou uma parceria com a Red Hat para a implantação do Linux em quase 9.000 pontos de venda em 560 lojas das bandeiras Pão de Açucar, Extra e CompreBem. Segundo o grupo a adoção do Linux ocorreu pela percepção de que “Os fabricantes estão assumindo a responsabilidade pelo suporte ao Linux” conforme relatou Ney Santos, diretor de tecnologia da Companhia Brasileira de Distribuição (novo nome do Grupo Pão de Açucar).

As empresas não possuem mais motivação para se travarem e esquecerem do GNU/Linux como uma oportunidade de negócio inovadora e competente. É totalmente possível usar o GNU/Linux em qualquer aplicação de ambiente corporativo, sem perda de nenhum tipo (ou com perda mínima).

Mas o que tudo isso tem a ver com Software Livre?

Segundo Helio Castro, desenvolvedor Linux da Mandriva Conectiva do Brasil e membro do projeto KDE, as universidades brasileiras não preparam o estudante para entender e trabalhar com o modelo de software livre. Normalmente os docentes impelem aos alunos um modelo exclusivamente proprietário durante a graduação. Cada aluno recebe um trabalho para executar e deve fazê-lo sozinho, sem compartilhar informações ou código com os colegas. Isso leva à um sistema que produz o chamado “Software de Padaria” onde, pela falta de tempo hábil, os alunos desenvolvem diversas versões de programas corriqueiros como controles para vídeo-locadoras, farmácias, etc. Esses programas tem pouco uso prático e quase sempre são esquecidos assim que o aluno pega o diploma. Se os docentes sugerissem que a turma trabalhasse como um todo, em equipe, usando o modelo livre na prática em um grande projeto os futuros profissionais teriam chance de criar softwares com real aplicação prática e saíriam das escolas preparados para trabalhar em equipes com um pleno entendimento do funcionamento do software livre enquanto modelo de produção.

Infelizmente verdade seja dita: a maioria das faculdades trata o ensino de informática segundo um modelo de uso e desenvolvimento proprietário. Se você estuda em uma faculdade, já deve ter percebido como aqueles que cedem códigos para os outros alunos são sempre considerados “bobocas”, “tapados” e outros termos que não valem a pena ser ditos aqui.

A verdade é que o software livre é apenas uma metodologia de desenvolvimento de software. Porém, ela possui toda uma quantidade de barreiras a serem transpostas pelo desenvolvedor se ele deseja ser bem-sucedido ao trabalhar com ela. Ele tem que aprender a:

  1. Aceitar opiniões e críticas;
  2. Aprender a colaborar;
  3. Mostrar que já tentou desenvolver algo;
  4. Pedir por ajuda;

Quatro coisas que, dentro do ambiente típico de desenvolvimento proprietário são consideradas inaceitáveis. É necessário que as faculdades sejam o primeiro bastião a fomentar tais comportamentos, estimulando um trabalho mais participativo. Na prática, o que vemos atualmente é que cada um faz o seu trabalho, de maneira independente e até mesmo antagônica em relação aos seus companheiros de turma. Seria muito mais interessante, como o Ricardo comentou, utilizar-se de projetos amplos o tempo todo. Estou (na verdade, toda a minha turma do curso de Tecnologia em Desenvolvimento de Software das Faculdades ASMEC está) sentindo o peso dessa falta de aculturação com um desenvolvimento mais colaborativo, graças a um projeto da coordenadoria do curso (antes que achem que estou criticando, antes tarde do que nunca… :D)

Continuando os comentários do artigo, Ricardo fala das certificações:

Entretanto uma empresa brasileira reconheceu as deficiências dos modelos acadêmicos e optou por outro caminho. Certificar o profissional treinando-o enquanto ele ainda é um estudante. Com essa fómula a Alternativa Linux desenvolveu um sistema de parceria com diversas universidades do Brasil para ministrar seus cursos dentro das universidades. Os alunos podem participar dos cursos e treinamentos durante a graduação e chegar ao mercado de trabalho já com uma certificação VN de Administração de sistemas Linux, Profissional Linux ou Segurança. Profissionais já colocados no mercado também podem obter as certificações da mesma forma, participando dos cursos dados pelas instituições que firmaram parceria com a Alternativa Linux. As certificações da Alternativa possuem uma boa aceitação do mercado, pois como a LPI são independentes de distribuição. A diferença é que essa certificação é mais voltada ao mercado brasileiro de software livre.

Iniciativas como LPI e Alternativa Linux (vendor neutral, independente da empresa) são muito positivas, na medida em que elas começam a criar uma força para o Software Livre com profissionais de qualidade. Mas é importante que as faculdades e, acima de tudo, os profissionais, percebam que Software Livre não é futuro. É presente. Pode não ser o dominante, mas é o que está crescendo. Não acho que profissionais com certificações MS estejam recebendo tanto assim, pois eles são comuns. Quem quiser se dar bem tem que apostar alto e ser apaixonado por aquilo. E paixão reflete-se na dedicação a um tipo de serviço. No caso, Software Livre. E nessa paixão, parar de enxergar uma solução como futuro, e sim como presente, é algo mais do que importante.

A expectativa é que o mercado de Software Livre torne-se cada vez mais pragmático, cada vez mais negócio. Acabaram-se os tempos em que software livre era exclusivamente passatempo de garagem de jovens idealistas. Isso ainda existe hoje, de fato. Mas os homens de negócios engravatados continuarão a tornar o software livre também um modelo comercial. Os profissionais devem manter isso em mente e buscar seu espaço para que possam fazer parte desse mercado que apresenta sinais de que continuará a expandir-se no Brasil e no mundo com bastante força nos próximos anos.

Na realidade, não há nada que impeça engravatados de ver o SL como um modelo comercial. Ser pragmático é bom algumas vezes. Mas não deixa de ser importante notar que a dedicação continuará contando… Como ele disse, será necessário profissionalização do profissional GNU/Linux (sem trocadilhos aqui), e uma característica de um profissional é estar sempre investindo e se aperfeiçoando.

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Sobre Fábio Emilio Costa
Linux, Free Software, EMACS, Rugby, Indycar, Doctor Who, Harry Potter... Yep, this is me!

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