Do que é feito o sucesso do Linux?

Essa semana alguns artigos me chamaram a atenção. Um, na verdade um pouco mais antigo, é o artigo da ZDNet Australia ”

Sandals and ponytail set cramp Linux
” que afirma a adoção do Linux é atravancada pelo fato de a maioria dos desenvolvedores e membros da comunidade free software ter um visual um tanto relaxado, mencionando Peter Quinn, ex-CIO do Estado de Massachussets (EUA), que recentemente foi mandado embora do seu cargo por ser favorável à adoção do formatos OpenDocument.

[Os profissionais] do código aberto possuem uma aparência pouco profissional, e a comunidade precisa ser mais voltada aos negócios de modo a começar a adentrar em áreas tradicionalmente dominadas pelos vendedores de software proprietário. [Ter] uma cara em um projeto ou agenda torna muito mais interessante para aqueles que elaboram políticas [considerar o código aberto].” (todas as traduções foram feitas por mim)

Os debates (e flames) em sites como o Slashdot e o BR-Linux foram muito intensos, principalmente com a noção de que “aparência não faz mesa”, mencionando coisas como os casos Enron e Worldcom (praticados por contadores e administradores, que, ao menos na teoria, se vestem impecavelmente.

Uma das melhores posições que li foi do pesquisador David Wheeler, publicada na Groklaw, que resumiu de certa forma os motivos de Quinn:

GROKLAW – Dress for success? Decide on your goals, then act to reach them, by David A. Wheeler

A verdade é que as pessoas julgam umas às outras baseando-se na aparência. Fingir que isso não é verdade não muda o fato. E tem mais: dificilmente conseguiremos fazer as pessoas pararem de julgar baseando-se na aparência; isso provavelmente exigiria uma engenharia genética universal.

Concordo em partes com o argumento de Wheeler: realmente é meio complicado um cara com uma aparência como a de uma cruza de um Buda com a de um profeta do deserto (como a de Richard Stallman) convencer os outros. Mas acho que existe um cuidado a se tomar: uma coisa que muitas vezes acontece e que é muito fácil de ser percebida é pessoas que não são tão boas ou talentosas assim serem consideradas mais do que pessoas que realmente conhecem da coisa, mas que não sejam tão bem arrumadas… Isso pode ser perigoso.
Para encerrar essa primeira parte, cito novamente Wheeler:

A regra é clara: defina quais são os objetivos mais importantes para serem atingidos por você e então ajuste a sua aparência (segundo seu estilo) para que ela o ajude a alcançar tais objetivos. A melhor roupa em geral vai depender de para quem você estará falando (particularmente para qual tipo de cultura você encontrará) e que tipo de evento no qual você irá aparecer. Em alguns eventos mantidos por instituições acadêmicas, aparecer com um terno e gravata fará com que você seja ignorado como um tapado. Do mesmo modo, em vários encontros/apresentações formais com oficiais do governo ou homens de negócio, aparecer vestindo jeans e camiseta irá significar que sua mensagem deve ser considerada pouco confiável, portanto será mais provável que eles façam exatamente o que você não quer.

Eu mesmo segui essa regra, procurando, na palestra que dei, estar mais apresentável do que normalmente sou (apesar de não ser sujo, às vezes tenho que admitir que fico muito desleixado). E por isso, a mensagem nossa acabou sendo ouvida.

Portanto, considero que, na realidade, é importante a imagem, mas ela não é tudo… Não adianta você “clonar-se” e ficar parecendo o Agente Smith do Matrix para achar que tá abafando. Como Wheeler disse, tudo vai depender de aonde você tá indo falar… “Pense nisso como um hacking social, ou como uma forma de amplificar dinheiro, se quiser.”
Acabado esse assunto, vamos para o próximo:
Em um artigo da Ars Tecnica, o vice-presidente de tecnologia da Real Networks (produtores do famoso Real Player) disse, sobre a questão do Linux não querer suportar sistemas de DRM:

A consequência do Linux não suportar DRM (Digital Rights Management) será que as únicas plataformas de entretenimento disponíveis serão equipamentos dedicados e PCs rodando Windows. O Linux será relegado a servidores e máquinas corporativas, já que não estaria provendo as tecnologias multimídia exigidas pelos consumidores.” (tradução retirada de Meio Bit | Ameaça Real: Sem DRM adeus Linux (Industria))

Vejamos… A primeira coisa é que o DRM é uma armadilha, quem já leu o livro “Cultura Livre“, de Lawrence Lessig (Editora Trama Universitário) sabe bem (leitura recomendável). Os sistemas de DRM são:

  1. Falhos: existem muitas formas, não interessa aqui se legais ou não, de contornar-se os sistemas de DRM;
  2. Draconianos: usuários portadores de necessidades especiais terão MUITOS produtos com sistemas com DRM. Por exemplo, pessoas cegas poderão não ser capazes de ler um ebook se o mesmo não estiver liberado de DRM (e, pela visão da indústria, não estará);
  3. Injusto: a coisa vai passar a ser assim: troquei de computador? Compro todas as minhas músicas de novo. Fui assaltado? Compro todas as minhas músicas de novo. E assim ad infinitum.

Agora, será realmente verdade que o Linux depende de beleza e de abaixar a cabeça para ser o que é?
Eu acho que não…
Há uma verdade: as grandes corporações querem tentar empurrar o relógio para trás, o que é basicamente nazista (se observada com atenção, a suástica nazista tem suas “pás” fazendo um movimento anti-horário). Claro que não vamos ganhar todas de uma hora para a outra. Mas sempre haverá acontecimentos como o caso do DVD Jon, que quebrou a criptografia do DVD (DeCSS) desenvolvendo legalmente um código de computador para legalmente assistir os filmes que ele legalmente comprou e que porque nenhuma grande corporação se dignou a desenvolver um player de DVD para o Linux ele não conseguia assistir. Graças a isso, ele, eu e muitos linuxers assistimos legalmente nossos DVDs comprados legalmente.
É claro que seria tolice imaginar que ninguém utiliza o DeCSS para fazer pirataria. Mas é como disse Jung “não há árvore que cresça apenas para cima. Quando ela ergue seus braços para cima, suas raízes continuam penetrando a terra.” Ou Nietziche: “Não olhe para seu monstros temendo tornar-se um deles. Quando você olha para o Abismo, o Abismo olha para você.”
O Linux não precisa disso para ser bem sucedido. O Linux já é bem sucedido. Quem já trabalhou ou viu um telecentro sabe do que estou falando. É hora de mostrar que o Linux não é uma onda, mas sim uma coisa nova, para o século XXI. Comportar-se bem e vestir-se corretamente? Pode ser. Sistemas com DRM? Quem sabe? Mas isso não vai mudar o fato de que o Linux é o que é, que ele chegou para ficar e para mexer nas coisas…
E esperamos que uma cultura mais livre surja, estimulada pelo Linux.

Sobre Fábio Emilio Costa
Linux, Free Software, EMACS, Rugby, Indycar, Doctor Who, Harry Potter... Yep, this is me!

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